A linguagem literária
PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. Série: Princípios. 4ª Ed. Editora Ática. São Paulo,1992.
1. Introdução
Texto literário, texto não-literário
Imaginemos que, na comunicação cotidiana, alguém nos diga a seguinte frase:
- Uma flor nasceu no chão da minha rua!
Conforme as circunstâncias em que é dita, isto é, de acordo com a situação de fala, entendemos que se refere a algo que realmente ocorreu, corresponde a um fato anterior ao seu enunciado e de fácil comprovação. Mesmo diante de sua transcrição escrita, o que nela se comunica basicamente permanece.
Num ou noutro caso, para trazer essa informação, o nosso interlocutor selecionou uma série de palavras do idioma que nos é comum e, de acordo com as regras que presidem o seu funcionamento e que todos conhecemos, as dispôs numa sequência. A seleção feita e a sucessão estabelecida conferem à frase uma significação que pode ser submetida à prova da verdade em relação a realidade imediata. Como é fácil concluir, é isso que acontece ao nos comunicarmos no dia-a-dia do nosso convívio social.
Retomemos a nossa frase inicial, agora ligeiramente modificada e combinada com outros elementos:
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rios de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
façam completo silêncio, paralisem os negócios,
Sua cor não se percebe
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Percebemos desde logo, que estamos diante de uma utilização especial da língua que falamos. o ritmo que caracteriza o texto, a natureza do que se comunica e, ao chegar até nós por escrito, a distribuição das palavras no espaço do papel, justificam essa conclusão. A nossa frase-exemplo depende também, como ato linguístico que é, da gesticulação e da entoação que a acompanharem ao ser enunciada; por força, entretanto, de sua situação nesse conjunto e na associação com as demais afirmações que a ela se vinculam, abre-se para um sentido múltiplo, ganha marcas de ambiguidade: no contexto do fragmento transcrito e da totalidade do poema de que faz parte_ "A flor e a náusea", de Carlos Drummond de Andrade (1) _podemos entender esta flor como esperança de mudança, por exemplo. Mas esse sentido que o texto a ela confere não reproduz nenhuma realidade imediata; nasce tão-somente do próprio texto. A flor desse rua deixa de ser um elemento vegetal para alçar-se a condição de símbolo, ganha uma significação que vai além do real-concreto e que passa a existir em função do conjunto em que a palavra se encontra. É claro que os versos remetem a uma realidade dos homens e do mundo, mas muito mais profunda do que a realidade imediatamente perceptível e traduzida no discurso comum das pessoas. É o que acontece com essa modalidade de linguagem, a linguagem da literatura, tanto na prosa, como nas manifestações em verso.
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