A linguagem literária - continuação
PROENÇA FILHO, Domício. A Linguagem Literária. Série Princípios. 4ª ed. Editora Ática. São Paulo,1992.
Ontem descrevi a primeira parte do capítulo Texto Literário, Texto Não-Literário, hoje colocarei a segunda parte:
Na prosa, por exemplo, podemos encontrar a palavra flor em outro contexto linguístico e com outro sentido, que lhe é conferido exatamente por essa nova circunstância: trata-se do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, onde o termo aparece numa afirmação vinculada a um famoso personagem criado pelo escritor: "Uma flor, o Quincas Borba".
Aí está um conteúdo inteiramente distinto do que se configura no poema drummondiano e que só pode ser percebido plenamente, na força de sua causticante ironia, quando a frase é considerada na totalidade do romance de que faz parte. É possível perceber a estreita relação entre a dimensão linguística e a dimensão literária que envolve a significação das palavras quando estas integram o sistema semiótico que é o texto literário.
Os três exemplos que acabamos de examinar permitem algumas conclusões:
A fala ou discurso é, no uso cotidiano, um instrumento da informação e da ação e não exige, no mais das vezes, atitude interpretativa. A significação das palavras, nesse caso, tem por base o jogo de relações configuradoras do idioma que falamos.
A fala comum se caracteriza pela transparência. O mesmo não acontece com o discurso literário. Este se encontra a serviço da criação artística. O texto da literatura é um objeto de linguagem ao qual se associa uma representação de realidades físicas, sociais e emocionais mediatizadas pelas palavras da língua na configuração de um objeto estético. O texto repercute em nós na medida em que revele emoções profundas, coincidentes com as que em nós se abriguem como seres sociais. O artista da palavra, o copartícipe da nossa humanidade, incorpora elementos dessa dimensão que nos são culturalmente comuns. Nosso entendimento do que nele se comunica passa a ser proporcional ao nosso repertório cultural, enquanto receptores e usuários de um saber comum.
O discurso literário traz, em certa medida, a marca da opacidade: abre-se a um tipo específico de descodificação ligado à capacidade e ao universo cultural do receptor.
Já se percebe o alto índice de multissignificação dessa modalidade de linguagem que, de antemão, quando com ela travamos contato, sabemos ser especial e distinta da modalidade própria do uso cotidiano. Quem se aproxima do texto literário sabe a priori que está diante de uma manifestação da literatura.
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